Desalento e esperanças
Desalento e esperanças
1. A Política moribunda
A Política está moribunda – ao menos naquele sentido que o termo tinha desde Aristóteles de busca da felicidade individual e coletiva da Pólis através da busca pelo conhecimento da verdade. É uma constatação que faço de coração pesado, não só tudo que se perde com esta extinção mas pela cenários devastados que emergem da conclusão.
O foco desta doença terminal é a absoltua supremacia de um conceito de política composto basicamente das questões relativas ao Poder – conquista-lo e mantê-lo segundo as técnicas mais eficientes – cuja ascensão e supremacia do “marqueteiro” é talvez a expressão mais evidente. O discurso dos fins justificando os meios responsável por uma adoção quase geral do foco exclusivamente nos meios e nos resultados em termos de sucesso na conquista do pdoer em detrimento dos cada vez mais distantes nobres fins leva a uma escalada na qual a técnica – cujo DNA fascista nunca pode ser suficiente destacada mesmo que sempre negligenciada – é tudo e os valores, nada.
No limite deste processo, mesmo os problemas concretos cuja resolução era o centro dos “fins”, jogados a escanteio porque o importante era “ganhar”, acabam sendo substituídos em grua crescente por soluções “marqueteiras”, destinadas a criar a ilusão do problema resolvido ou ampliar o impacto eleitoral de algumas ações.
Lembro-me aqui, e em vários pontos deste texto, de um autor, o húngaro Karl Mannhein, cujas volúveis modas acadêmicas relegaram a algum esquecimento, mas que considero que mereceria uma releitura crítica, na medida em que sua visão tem potencial de polinizar uma compreensão melhor entre política, conhecimento e sociedade. Neste caso específico, a categoria definida por ele do “conservadorismo burocrático”, o qual tende a converter todos os problemas políticos em problemas administrativos.
2. Política como Força
A minha modesta opinião é que esta é a estrada que nos leva ao Fascismo. É evidente que o Fascismo depende de uma conjunção de fatores econômicos, sociais, políticos e culturais – cuja análise foge do escopo deste epqueno texto – mas centro no elemento central, que se pdoeria chamar de ideológico – de que conceber a Política como mera expressão de luta pelo Poder, em especial de técnicas para alcança-lo e mantê-lo – é uma abordagem cuja consequência é o fortalecimento de visões fascistas.
Se só a Força importa neste processo então aquela “visão de mundo” segundo a qual a força deve ser aplicada sem freios certamente tem uma vantagem, digamos epistemológica, sobre as outras nas quais mesmo que timidamente persistiram algumas justificações pela finalidade ou estão sujeitas a alguns outros limites valorativos ou de princípios não totalmente erodidos. É particularmente assustador para mim ouvir as pessoas comuns em contextos muito diversos assumiram como “dado” esta concepção de política como mera estratégia, demonstrando que o conceito já foi definitivamente capturado mesmo no senso comum.
Admitir a primazia desta dimensão da força, transformando toda disputa política em uma operação militar na qual a resolução vem da adequada aloção e emprego das forças disponíveis no impacto decisivo que subjuga os adversários, é levar a batalha para um campo no qual o Fascismo tem a vantagem do terreno, da experiência, da ausência de escrúpulos, da vontade e comando únicos.
3. Sair da armadilha
Como sair desta armadilha que nos empurra para o fascismo – idependente do rótulo que ele adote – é a reflexão que tento neste e em outros textos nos próximos dias. Para sair é necessário entender como entramos na arapuca e neste sentido reforço o dito acima que mesmo sendo o fascismo produto de condições complexas há especificamente uma dimensão política intrinsecamente ligada a forma pela qual a política é vista.
Esta visão da política, embora provavelmente não seja capaz de criar per si o fascismo, contribui de forma muito relevante para o sucesso das concepções autoritárias ou totalitárias na medida que circunscreve e delimita um campo da política na qual as respostas alternativas tem até mesmo dificuldades de serem formuladas. Usando um exemplo extremo, talvez inválido, o argumento marqueteiro de que tal cosia deve ser feita “se quisermos ganhar as eleições”, e em geral esta tla cosia é em algum grau a utilização de técnicas fascistas da publicidade, demonstra só a titulo de fraco exemplo, este vício da visão da política limitando outras abordagens da luta política.
Qualquer esperança, segundo mais uma vez minha modesta opinião, reside em escapar da visão pragmática, imediatista e superficial da política e tentar reconstruir o sentido mais amplo e valorativo do termo. Será ainda possível refundar a Política como a “ciência” do bem estar e felicidade individual e coletiva? É possível fazer isto em um marco epistemológico tão distante de Aristóteles sem que se perca séculos – e em especial as últimas décadas, nas quais se produziram os melhores resultados – de conhecimento sobre o assunto?
Espero poder, nos próximos dias traçar alguns palpites sobre estes pontos.
